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Paridade no movimento sindical precisa sair do papel

Aos 65 anos, Geni Dalla Rosa traz em sua bagagem histórias de resistência no movimento sindical. Em abril, ela relembra sua trajetória de 30 anos desde que iniciou sua militância no ramo da alimentação, na cidade de Serafina Corrêa, interior do Rio Grande do Sul e, como trabalhadora do antigo Frigorífico Ideal, atual BRF Brasil Foods, ela entrou para o sindicato num momento em que “a mulher era chamada apenas para fazer atas de reunião”, como lembra.

Foi no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação de Serafina Corrêa que ela estabeleceu sua luta no movimento sindical, quando ainda não havia paridade entre homens e mulheres nos cargos de direção.

Mas ela decidiu subverter esta cultura, fazendo política e exercendo sua militância. Foi assim que fez a disputa por igualdade em defesa dos direitos da classe trabalhadora, enfrentando, como relata a dirigente, o “machismo em suas mais variadas formas”.

Segundo ela, as trapaças eram comuns do outro lado. “Foi em 1993 que disputei pela primeira vez uma eleição e ainda como oposição para tirar um homem da presidência do sindicato já que ele não tinha compromisso nenhum com a classe trabalhadora”, lembra.

Nesta eleição, ela recorda que, ao invés do debate político, os que estavam no poder resolveram apelar. “Grupos mais conservadores e reacionários diziam que eu me prostituía, outros chegaram a forjar meu holerite para fazer intriga com a categoria. Situações para expor a minha imagem. Mas de nada adiantou. Eu fui eleita pelo meu trabalho e assumi, desde então, a presidência e outros cargos nesses últimos anos, sempre com apoio das mulheres e de companheiros que entendem a nossa luta”, diz orgulhosa.

Disputa pela paridade

Numa trajetória de 30 anos, Geni Dalla Rosa fortaleceu seu sindicato de base no ramo da alimentação, por várias vezes como presidenta, fez parte da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação do Rio Grande do Sul (FTIA/RS) e ajudou a construir a Confederação Brasileira Democrática dos Trabalhadores da Indústria de Alimentação (Contac), entidades em que ocupou – e ainda ocupa – diferentes postos.

Em 2017, assumiu cadeira no Comitê Executivo da Uita (União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação) pelo Brasil, durante a 15ª Conferência Regional Latino-Americana, em Punta Cana, na República Dominicana.

De todo este período como dirigente sindical, ela destaca o ano de 2012, quando a paridade entre homens em mulheres foi aprovada como obrigatória  para as direções da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Mesmo assim, Geni aponta que a regra ainda não saiu do papel.

“Com a paridade aprovada, tornando-se parte do programa político da CUT, outras entidades sindicais filiadas começaram a se movimentar no mesmo sentido. Foi de fato um avanço que tivemos, mas a implementação continua como desafio permanente.”

Geni cita como exemplo a eleição da FTIA/RS que ocorrerá em 20 em abril. De acordo com ela, a federação aprovou em seu congresso a paridade que não está sendo cumprida.

“Numa direção executiva de oito dirigentes, apenas duas são mulheres. Outras que compõem a chapa de disputa foram colocadas em cargos secundários, na suplência. A paridade no movimento precisa sair do papel, ser colocada em prática”, ressalta.

Na área da alimentação, diz, isso não é diferente. Cargos de gerência e de supervisão são dados, em grande parte, ainda hoje aos homens.

“As mulheres, em sua maioria, vão para a produção, para o chão de fábrica. Isso sem falar que sofrem com diferença salarial e assédios moral e sexual. Isso não acontece apenas no Brasil, mas em outros lugares do mundo. Certa vez, num congresso que participei em Genebra, eram comuns relatos e denúncias neste sentido.”

Sindicalismo como alvo

Um mês após as comemorações relacionadas ao Dia Internacional das Mulheres, em março, Geni lembra que a luta feminista não se restringe a um único período e está presente em todos os espaços da sociedade.

“Vivemos agora um golpe machista, patriarcal, capitalista e midiático, que não apenas derrubou Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita e reeleita com mais de 54 milhões de votos, mas também vem retirando a cada dia as políticas sociais que conquistamos. Não bastasse isso, aprovaram a terceirização e a reforma trabalhista. Agora querem aprovar a reforma da Previdência e exterminar o movimento sindical”, sinaliza.

Diante deste cenário e para barrar a avalanche de retrocessos na atual conjuntura, ela defende as mobilizações de rua e diz que é preciso garantir eleições diretas para Presidência em 2018.

“A democracia deve prevalecer e as greves devem continuar para barrarmos qualquer atrocidade que este governo golpista de (Michel) Temer vem fazendo, como a intervenção militar que serve como cortina de fumaça para outras questões e mostra sua face violenta e institucional contra a periferia, como comprovam os crimes cometidos contra uma mulher negra, empoderada, da periferia, a vereadora Marielle Franco, e seu motorista, no Rio de Janeiro”, conclui.

Escrito por: Vanessa Ramos – Contac-CUT
Foto da capa: Emerson Rieffel/ Rel-UITA
Atualizado em: 31 de março de 2018.

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